AVENTURA Nº 2:
Por Marta Soto
Por Marta Soto
A MARMITA DO SEU MANOEL
Hoje caminhando pelo Novo Centro
de Maringá vejo arranha- céus por todos os lados. Já não existe mais aquele
acampado com aquele céu azul anil sem igual da nossa infância. Paro e começo a
recordar que este lugar pelo qual passamos tantas vezes e que era chamado de
Esplanada foi o cenário de muitas idas e vindas das famílias que chegavam à
Maringá pela rodoviária e também pela ferroviária e de muitas brincadeiras
infantis de meus irmãos. Fecho os olhos e chego a ver as raias onde
colocavam os cavalos e as toras de madeira empilhadas umas sobre as outras. Tudo era tão rural! Com o passar dos anos, mais abaixo,
foi construído o único viaduto que havia em Maringá naquela época e pelo qual passei
tantas vezes quando estudava no Vital Brasil e no Instituto de Educação. Este também
era caminho obrigatório para quem fosse ao centro da cidade pela av. São Paulo e este foi o cenário em que aconteceu mais esta história da nossa infância.
Seu Manoel e Dona Marinete eram
vizinhos ímpares. Aos Domingos ele se juntava com seus amigos e gostavam de
comer e beber todas. A farra era sem igual! Lá pelas tantas, já embriagados, a música
era colocada na vitrola e todos cantavam juntos: “Cabelo loiro vai lá em casa passear,
vai, vai, cabelo loiro pra acabar de me matar!” Assim passavam o Domingo e à
tardinha com o sol já se pondo todos saiam se arrastando de volta para suas
casas, pois segunda-feira era “dia de branco”, como eles diziam, e precisavam
estar inteiros para a lida que começava bem cedo. Dona Marinete, sua esposa,
era aquela cearense submissa doce e sorridente que obedecia sem pestanejar e nem
questionar todas as ordens do marido. As crianças morriam de medo dele, pois se
desobedecessem a surra era certa e sem piedade.
Toda manhã lá ia o seu Manoel para
o trabalho. Montava em sua bicicleta husqvarna e seguia para as bandas da
esplanada onde trabalhava. Levava a marmita pronta com a comida saborosa que Dona
Marinete fazia para ele almoçar ao meio dia.
Naquele dia, no entanto, se
esqueceu de levá-la e Dona Marinete, preocupada com ele resolveu pedir para os dois filhos da vizinha, Lóia
e Edileuza levarem o almoço.
Então colocou a comida na
marmita, amarrou em um pano branco e entregou a Edileuza para que ela
carregasse.
Os dois irmãos ficaram muito
entusiasmados, pois o dia prometia fartas brincadeiras, apesar da chuva, e esta
seria uma aventura e tanto. Às onze horas saíram rumo à esplanada. Para eles,
tudo não passava de uma oportunidade de brincar. Chegaram à raia onde ficavam
os cavalos, descansaram um pouco, brincaram um pouco por ali, viram uma casca
de árvore enorme que saíra de uma das toras e colocaram dentro da poça de água para simular uma canoa. Ela
sempre de shorts de elástico nas pernas que sua mãe fazia e ele sempre com seu embornal
a tiracolo para o caso de encontrar algum pássaro pelo caminho. Brincaram até
se cansar e sentiram fome.
Ainda tinham muito que caminhar
para chegarem ao local de trabalho de seu Manoel e a fome atrapalhava a
caminhada. Então tiveram uma ideia: comeriam um pouco da comida de seu Manoel.
Ele nem perceberia. Abriram a marmita, sentiram aquele aroma delicioso e a fome
ficou mais evidente. Na marmita havia arroz, feijão, farinha de mandioca e
linguiça. Comeram com cuidado, sem deixar vestígio de suas garfadas um pouco de
cada coisa. Depois arrumaram a comida para seu Manoel não perceber e seguiram
para concluir sua tarefa. Chegando, avistaram seu Manoel e entregaram-lhe a
encomenda e seu Manoel ficou feliz e agradecido ao recebê-la, pois já estava imaginando a
fome que sentiria até chegar o final do dia.
Entregue a encomenda os dois irmãos voltaram correndo para casa porque
suas barrigas estavam ainda roncando de fome e com certeza sua mãe já estava com a
comida pronta.
À noite, quando chegou, seu
Manoel quis saber por que Dona Marinete havia colocado tão pouca comida para ele.
Ela o olhou surpresa porque sabia que havia colocado a quantidade de todos os
dias, mas imaginava exatamente o que havia acontecido.