A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

quarta-feira, 28 de março de 2018

A MENINA E EU - por Marta Soto




A senhora que sou
Traz os cabelos prateados
  Embaixo da tintura dourada,
Mas a alma de uma menina.
Por fora, o desgaste de uma vida bem vivida,
Por dentro, uma alma jovem, de uma menina
Que acredita no mundo,
Apesar das pedras no caminho,
E se encanta com as coisas simples da vida.

A menina que vive dentro de mim
Se pega sorrindo,
Dançando,
Cantando,
E na imaginação,
Dança com perfeição,
Feito bailarina a bailar
Pelas ruas,
Calçadas,
Gramados
A espalhar felicidade por onde passa.

A senhora que eu sou se confunde com a menina que está dentro de mim,
E se olha no espelho
E não se encontra,
Nas marcas do rosto,
Nas manchas das mãos,
Nas neves dos cabelos,
No cansaço da vida.

Mas, a senhora que sou sabe que a menina é real
E mesmo com o passar dos anos, a menina cá está,
Tornando a vida mais fácil, mais leve e mais feliz.
                                           

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

MELHOR IDADE - por Marta Soto






Enfim, chegando a “melhor idade”

Melhor idade?

Quase fechando a porta dos cinqüenta

 E passando a chave para não mais abrir.

O tempo voou rápido e assustadoramente

E cá estou eu com quase sessenta.



O pensamento que se assoma com frequência

E a pergunta que não quer calar: daqui para frente, como será?

Olho no espelho e vejo as marcas do tempo no rosto e por todo o corpo

Junto com elas, o esquecimento,

 a perda da energia, o medo do que virá

E mais ainda com a certeza de que a vida é fugaz;



Mas de uma coisa tenho consciência

Mesmo não aparecendo nas miradas no espelho,

Aquela menina sonhadora ainda está aqui dentro

Teimando ainda sonhar.



O tempo é atroz e implacável

Tempo, tempo, passageiro e rápido

Senhor de todos os destinos

Inexorável está a me espreitar

Agora entendo a efemeridade das coisas

Mas agradeço a Deus pela graça de ter chegado até aqui,

E se merecer, que eu ainda tenha mais alguns anos nesse plano.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

CÍCERO (por Marta Soto)



            Como definir Cícero? Era pura simpatia, sempre sorrindo e uma enorme vontade de viver. Fazia amigos com facilidade porque tinha uma alma grande e espírito elevado, sempre pronto a ajudar quem precisasse sem nenhuma preguiça. Apesar de suas limitações, não as via como obstáculos para aprender ou fazer qualquer coisa. Ele era prestativo e gostava da vida. Com sua bicicleta, rodava por toda a cidade, percorrendo quilômetros diariamente para ocupar seu tempo e quando ouvíamos alguém dizer que ele os visitara em algum lugar muito longe, sabíamos que era verdade porque para ele não havia distância que não a transpusesse. Era querido por todos que o conheciam, e vivia sorrindo, de bem com a vida.  Inteligente, mesmo com todas as dificuldades impostas por sua enfermidade, conseguiu estudar até o científico, na escola mais tradicional, o Gastão Vidigal. Aprendeu a tocar alguns instrumentos lendo as partituras com muita facilidade. Tocava sanfona e se ariscava em um órgão, teclado e até mesmo um piano. Aprendeu também a dirigir e se encantava quando alguém confiava e lhe oferecia um carro para que ele dirigisse.
Ele era o filho mais velho, andou somente aos quatro anos de idade e começou a falar tardiamente, com muita dificuldade porque tinha um grau bastante acentuado de surdez. Nunca foi levado ao médico para ter um diagnóstico preciso da doença  por causa da falta de recursos financeiros da família e de sempre morarem na zona rural, bem distante das cidades, (naquele tempo tudo era mais difícil, principalmente quando as pessoas eram simples).  Conforme ele foi crescendo, a família foi percebendo suas dificuldades e limitações e que os problemas eram, em sua maioria, do fato dele não ouvir bem.

Mamãe contava várias histórias a cerca de seu nascimento para justificar a doença. Contava ela que certa noite estava deitada em uma rede quando meu pai entrou com uma espingarda e lhe disse bem baixinho que se levantasse da rede. Ela muito curiosa seguiu o olhar dele até o teto de palha e viu com muito horror uma cobra enorme acima de sua cabeça. Deu um salto enorme já gritando e ele atirou na cobra que caiu no mesmo instante na rede em que ela estava deitada. Segundo ela, o susto que levou provavelmente foi a causa dos problemas do filho. Mais tarde, já adulto, descobrimos que a doença que o acometera durante toda a vida era genética e que provavelmente alguém da família no passado já tivera a mesma enfermidade.

Era um filho especial que mamãe tratava com muito carinho, cuidados e mimos super protegendo-o de tudo. Lembro-me de um dia em que Cícero chegou a nossa casa chorando muito, soluçando tanto que ninguém conseguia fazê-lo parar. Mamãe desesperou e me mandou correndo até a casa de minha avó e de minha tia que ficavam no mesmo quarteirão, saber o que havia acontecido. Ninguém sabia de nada e ele também não contou. Dormiu chorando cercado de todos os cuidados. Hoje penso que talvez ele tivesse depressão, mas na época ninguém falava nesta doença. Quando mamãe se foi, não se esqueceu de recomendar a todos nós que cuidássemos dele. Foi sua maior preocupação!

Ele viveu assim por muitos anos quando de repente sentimos que alguma coisa errada estava acontecendo com ele. Quando chegava a nossa casa percebíamos que ele arrastava os pés para andar. Observamos isto, mas nem imaginávamos o que estaria por vir. Dizíamos para ele: “Cícero, não arraste os pés! Ele ria! Então, ele passou a nos contar que havia caído da bicicleta na frente de um carro e começamos a ficar preocupados seriamente com ele. Eu disse para ele que iria fazer um lembrete com seu nome e endereço para ele andar no bolso. Ele não gostou da ideia e paramos por aí. Minha irmã Neuza passou a levá-lo no SUS para consultas que nunca chegava a nenhuma conclusão. Certo dia, eu disse que o levássemos a um neurologista para uma consulta particular. A partir desse momento, começamos a descobrir o que realmente ele tinha.

Exames computadorizados minuciosos foram feitos até que o doutor nos chamou e finalmente nos disse o que realmente ele tinha. A doença era degenerativa e se chamava ELA (Esclerose Lateral Amiantrófica). O médico nos preveniu que a doença dele era genética e que ele aos poucos perderia os movimentos e que iria sentir muita falta de ar porque seus pulmões iriam se comprimir conforme os músculos fossem secando e a partir desse momento ele poderia entrar em óbito. Choramos muito mais não contamos para ele. Ficamos conversando e tentando buscar uma solução. Pensamos em levá-lo para Curitiba, porém, desistimos por saber que não adiantaria de nada. Dessa forma, vimos nosso irmão definhar aos poucos, sem podermos fazer muita coisa por ele. O levávamos às consultas periódicas mesmo sabendo que seriam paliativas e somente retardariam o óbito.

Em seu momento final, o sofrimento foi insuportável! De hospital em hospital nos revezávamos nos cuidados. Ele sempre calado, sem reclamar, suportava todo o sofrimento. Creio que ele acreditava que podia se curar. Perdeu os movimentos das mão, dos pés, sempre inchados por falta de circulação, e  por fim já se alimentava por meio de uma sonda. A sua magreza era assustadora devido à forma de alimentação. Olhávamos para ele e víamos toda a dor estampada em seu rosto, contudo, sem reclamar. Aquele Anjo se foi em uma manhã fria e triste de julho. Ficamos muito sentidos, porém, conformados porque sabíamos que estava melhor assim. Ele se foi como todos nós iremos um dia e deixou saudades de suas falas inesquecíveis que nos faziam rir muito.  Saudades, irmão! Mas uma saudade que sabemos que é de amor que temos por você e que sempre vamos nos recordar dos bons momentos que passamos juntos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

JOSÉ (por Marta Soto)





   José era um garoto doce que vivia a brincar com os animais. Sempre que saia para a rua voltava para casa com um cachorro a tiracolo. Esse costume valeu-lhe o apelido de Zé cachorro. 
    Seu sonho era ter uma bicicleta, assim ele começou a trabalhar muito cedo com seu padrinho e nosso tio José, de quem ele herdou o nome. Ele sempre se orgulhou de ter recebido o mesmo nome do tio com o final acrescido da palavra "Sobrinho" e sempre que alguém lhe perguntava o nome ele rapidamente dizia que era "José Tomé de Lima Sobrinho", com aquele típico sotaque nordestino carregado enfatizando sempre a letra ó, como somente ele podia dizer. Assim que ganhou seu primeiro dinheiro comprou uma bicicleta usada para poder ir ao trabalho e fazer seus passeios quando podia. 
    Fazia pequenos serviços na construção civil e começou a aprender o ofício que o sustentaria para sempre. Ele era o segundo filho dos sete que restaram.
    Como a família era numerosa e o dinheiro era pouco para sustentar tantas bocas, todo alimento era muito bem dividido para que todas as crianças pudessem se alimentar por igual. Neste item José não concordava e achava sempre que o seu quinhão era menor. Chorava, reclamava e se lamentava que só. Todos já conheciam aquelas lamúrias, mas ninguém fazia caso.
    Todo dia passava o padeiro com seu carrinho de alumínio atrelado ao seu cavalo cheio de pães, buzinando e avisando a toda a vizinhança que o pão estava chegando. Era uma festa quando ele chegava. Mamãe saia no quintal e acenava para ele, que parava prontamente. Descia da carroça e abria o local onde acomodava os pães. Pão sovado, baguete, pão doce, broa de milho e todos os tipos de pães que se podia imaginar. O cheiro entrava pelas nossas narinas e a vontade de comer aquelas delícias crescia. Como o dinheiro era curto dava somente para comprar um baguete que seria compartilhado por todos. Então ela fazia o café, e dividia meticulosamente o pão para cada um dos filhos. Os nossos olhos brilhavam e comíamos até os farelos que caiam na toalha. Não desperdiçávamos nenhuma casquinha que fosse de tanto que nós gostávamos.
    Certo dia, mamãe repartiu o pão e distribuiu um pedaço para cada um dos filhos. José ficou com o bico. Comeu reclamando, choramingando e dizendo que o dela havia sido menor do que os outros. Ela o deixou comer e quando terminou o mandou buscar mais na vendinha do Osório. Ele foi, mas sem saber que todos os pães seriam somente para ele. Quando chegou, mamãe mandou que ele se sentasse e começasse a comer. Ele ficou feliz e assim foi comendo, comendo e quando já estava farto disse à ela que não queria mais. Foi então que ele ouviu surpreso que teria que comer todos. Ele continuou a comer, mas já sem o entusiasmo inicial. Já empanturrado, dizia que não queria mais, porém mamãe, com a cinta na mão disse-lhe que comesse senão apanharia. Assim, comeu todos os pães e esta foi uma lição que ele nunca mais se esqueceu. Daí em diante, todas as vezes que o pão era dividido ele comia seu pedaço sem questionar, pois tinha aprendido a duras penas.
    Hoje sempre que nos reunimos, contamos algumas das travessuras de infância e esta é uma das histórias que nunca deixamos de relembrar e rir as largas.