A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

segunda-feira, 20 de abril de 2015

AVENTURAS DO GAROTO LÓIA




AVENTURA Nº 2:

Por Marta Soto
A MARMITA DO SEU MANOEL

Hoje caminhando pelo Novo Centro de Maringá vejo arranha- céus por todos os lados. Já não existe mais aquele acampado com aquele céu azul anil sem igual da nossa infância. Paro e começo a recordar que este lugar pelo qual passamos tantas vezes e que era chamado de Esplanada foi o cenário de muitas idas e vindas das famílias que chegavam à Maringá pela rodoviária e também pela ferroviária e de muitas brincadeiras infantis de meus irmãos. Fecho os olhos e chego a ver as raias onde colocavam os cavalos e as toras de madeira empilhadas umas sobre as outras. Tudo era tão rural! Com o passar dos anos, mais abaixo, foi construído o único viaduto que havia em Maringá naquela época e pelo qual passei tantas vezes quando estudava no Vital Brasil e no Instituto de Educação. Este também era caminho obrigatório para quem fosse ao centro da cidade pela av. São Paulo e este foi o cenário em que aconteceu mais esta história da nossa  infância.
 

Seu Manoel e Dona Marinete eram vizinhos ímpares. Aos Domingos ele se juntava com seus amigos e gostavam de comer e beber todas. A farra era sem igual! Lá pelas tantas, já embriagados, a música era colocada na vitrola e todos cantavam juntos: “Cabelo loiro vai lá em casa passear, vai, vai, cabelo loiro pra acabar de me matar!” Assim passavam o Domingo e à tardinha com o sol já se pondo todos saiam se arrastando de volta para suas casas, pois segunda-feira era “dia de branco”, como eles diziam, e precisavam estar inteiros para a lida que começava bem cedo. Dona Marinete, sua esposa, era aquela cearense submissa doce e sorridente que obedecia sem pestanejar e nem questionar todas as ordens do marido. As crianças morriam de medo dele, pois se desobedecessem a surra era certa e sem piedade.

Toda manhã lá ia o seu Manoel para o trabalho. Montava em sua bicicleta husqvarna e seguia para as bandas da esplanada onde trabalhava. Levava a marmita pronta com a comida saborosa que Dona Marinete fazia para ele almoçar ao meio dia.

Naquele dia, no entanto, se esqueceu de levá-la e Dona Marinete, preocupada com ele resolveu pedir para os dois filhos da vizinha, Lóia e Edileuza levarem o almoço.

Então colocou a comida na marmita, amarrou em um pano branco e entregou a Edileuza para que ela carregasse.

Os dois irmãos ficaram muito entusiasmados, pois o dia prometia fartas brincadeiras, apesar da chuva, e esta seria uma aventura e tanto. Às onze horas saíram rumo à esplanada. Para eles, tudo não passava de uma oportunidade de brincar. Chegaram à raia onde ficavam os cavalos, descansaram um pouco, brincaram um pouco por ali, viram uma casca de árvore enorme que saíra de uma das toras e colocaram dentro da poça de água para simular uma canoa. Ela sempre de shorts de elástico nas pernas que sua mãe fazia e ele sempre com seu embornal a tiracolo para o caso de encontrar algum pássaro pelo caminho. Brincaram até se cansar e sentiram fome.

Ainda tinham muito que caminhar para chegarem ao local de trabalho de seu Manoel e a fome atrapalhava a caminhada. Então tiveram uma ideia: comeriam um pouco da comida de seu Manoel. Ele nem perceberia. Abriram a marmita, sentiram aquele aroma delicioso e a fome ficou mais evidente. Na marmita havia arroz, feijão, farinha de mandioca e linguiça. Comeram com cuidado, sem deixar vestígio de suas garfadas um pouco de cada coisa. Depois arrumaram a comida para seu Manoel não perceber e seguiram para concluir sua tarefa. Chegando, avistaram seu Manoel e entregaram-lhe a encomenda e seu Manoel ficou feliz e agradecido ao recebê-la, pois já estava imaginando a fome que sentiria até chegar o final do dia.  Entregue a encomenda os dois irmãos voltaram correndo para casa porque suas barrigas estavam ainda roncando de fome e com certeza sua mãe já estava com a comida pronta.

À noite, quando chegou, seu Manoel quis saber por que Dona Marinete havia colocado tão pouca comida para ele. Ela o olhou surpresa porque sabia que havia colocado a quantidade de todos os dias, mas imaginava exatamente o que havia acontecido.