A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

AVENTURAS DO GAROTO LÓIA



AVENTURA Nº1:
Por Marta Soto


A BONECA


            Como era bom ser criança! Esse pensamento tão frequente na cabeça de quem há muito se distanciou da infância não é apenas saudosista, antes é alento... fôlego para prosseguir no mundo. Pois há passatempo mais renovador que nos relembrarmos da nossa forma mais pura (infância)?   Como disse Gabriel García Márques “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. É bem isso mesmo, na infância as recordações pintam de cores da inocência tudo quanto a memória permite restituir.

Então voltemos às reminiscências. Cada brincadeira era sempre especial e cada uma delas tinha formatos diferentes dependendo da criança e da forma como era criada, e pronto: aparecia uma variedade enorme de brincadeiras desde salva, balança caixão, escravos de Jó, amarelinha, elástico, enfim as brincadeiras podiam ser simples, mas toda criança era realmente criança no sentido pleno da palavra, sem malícias, sem participarem da vida adulta, pois não sofrera ainda a influência da televisão nem da mídia em geral porque naquele tempo era rara a família que tinha um aparelho de televisão em casa. As famílias se reuniam à noite no terreiro e os adultos contavam histórias enquanto as crianças brincavam naquela terra vermelha e depois só lavavam os pés em uma bacia para dormir. As brincadeiras eram simples e muitas vezes eram engraçadas. Naquela época nem se sonhava com tecnologias e os garotos nem podiam imaginar que um dia o homem inventaria vídeo game, tablet, computador, celular digital ou qualquer coisa do gênero. As brincadeiras eram cheias de criatividade, e como as crianças tinham imaginação!

Laércio, o Lóia, como sua mãe gostava de chamá-lo, era uma dessas crianças que estava sempre criando novas brincadeiras e por isso mesmo era querido por todos os garotos da redondeza que o procuravam diariamente para juntos, brincarem. Era um garoto inquieto e travesso, e a sua brincadeira predileta era caçar passarinho com seu estilingue, se é que se pode dizer que naquela época existia uma brincadeira predileta ou era por falta de opção, sei lá. Sempre que podia, dava aquela escapada e podia procurá-lo que estava lá para os lados da Fazenda Maringá com seus amigos atirando mamonas com seus estilingues para cima dos pés de cafés. Sua mãe fazia embornais de tecido para que ele enchesse de caroço de mamona e assim ao final da tarde lá vinha ele e seus amigos de todos os dias com os embornais cheios de passarinhos pedindo para que ela os fritasse. Era uma farra! Os meninos mesmos depenavam as avezinhas, sem nenhum remorso, retiravam seu intestino, as lavavam, salgavam e ansiosamente aguardavam serem fritas. Quando o cheirinho estava delicioso sabiam que já estava pronto seu prato preferido. Passavam na farinha de mandioca e comiam felizes os produtos de seu trabalho diário fazendo um barulho imenso.

Numa manhã ensolarada, chegaram os meninos fazendo aquela algazarra e chamaram Lóia para suas aventuras matinais. Ele vestiu–se rapidamente com as roupas simples do dia a dia, colocou seu embornal a tiracolo não se esquecendo de seu estilingue e rumaram para a Fazenda para exercitar sua brincadeira preferida.

Lá pelas tantas, Lóia viu um pedaço de pano em cima de um pé de café. Mirou com cuidado e, pronto: caiu o pacote no chão. Correu entusiasmado para pegá-lo e para sua surpresa dentro havia uma boneca linda que mais parecia um anjo com os cabelos louros, olhos azuis e aqueles cílios grandes que se abriam e fechavam quando a mudava de posição.  Mostrou para seus amigos e resolveram voltar para casa, pois já havia encontrado seu tesouro.

Aquela boneca linda seria a primeira que sua irmã ganharia em toda sua vida, visto que a sua família não possuía posses para comprar um brinquedo tão caro. De quem seria aquela boneca? Provavelmente de uma das filhas do rico fazendeiro dono daquele lugar que era invadido por eles diariamente para brincar escondidos do administrador que por sinal se os pegassem passava fogo com sua espingarda de sal. Chegou à casa, afobado e feliz, e entregou aquele brinquedo à sua irmã menor. O brilho que surgiu nos olhos da menina era indescritível! Ela agarrou a boneca com tanto amor e se abraçou a ela para não mais soltar e Lóia a ficou olhando com ternura e se sentiu o garoto mais sortudo do mundo. Aquela garotinha era eu!

quinta-feira, 29 de maio de 2014

CRÔNICA - MÃOS PARA CIMA: UM ASSALTO À DIGNIDADE



MÃOS PARA CIMA: UM ASSALTO À DIGNIDADE
 (por Marta Soto)

        Toni era funcionário público, negro, e morava em um bairro de periferia de fama não muito boa. A má reputação adivinha do fato de este ou aquele acontecimento estar sempre nos noticiários sensacionalistas da televisão ou dos jornais locais. Sabe como é... Muita gente boa e trabalhadora faz mil ações honestas todos os dias, mas são divulgadas apenas as ruins e assim se faz a fama.
       Certa noite, Toni chegou do trabalho muito cansado, tomou um banho e já ia se deitar quando pensou em uma cerveja estupidamente gelada. Sua boca salivou e encheu-se de água. Fazia muito calor e ele se lembrou que havia um bar próximo à sua casa e que era frequentado por alguns velhos e bons amigos. Vestiu-se com uma bermuda, camiseta regata, calçou seus chinelos e saiu pensando que nada melhor para apagar aquele calor infernal do que relaxar, jogar conversa fora com seus camaradas tomando umas cervejas, jogando sinuca. No caminho foi se lembrando como fora difícil chegar a ser professor, dos empregos que havia tido ao longo de sua vida e de como foi gratificante perseverar nas horas difíceis e poder colher os frutos de sua profissão. Agora, apesar da vida de professor não ser fácil, estava muito melhor do que antes. Pelo menos tinha certo status, pensou orgulhoso de si mesmo.
        Chegou ao bar, sentou-se no balcão, pediu sua cerveja encontrou o primeiro amigo que o abraçou efusivamente. Do outro lado do bar, outros o viram e também vieram cumprimentá-lo com muita alegria como nos velhos tempos.
        Riam-se a larga quando de repente, chegou um carro da Rotam e dele desceram dois policiais. Adentraram ao bar, olharam tudo à sua volta, trocaram algumas palavras entre eles e foram apontando um a um os tipos que eles consideraram suspeitos.
        -Encostem-se na parede e abram as pernas com as mãos para cima, determinou um dos policiais.
        Toni não queria acreditar que aquilo estava acontecendo com ele. Tentou argumentar com o policial que o estava revistando, mas foi interrompido com um “cala a boca!” intimativo. Com as pernas abertas e mãos para cima Toni pensava sobre sua má sorte de estar ali justo naquele momento; e o policial seguia a revista à procura de drogas ou arma. Com os seus documentos nas mãos, o policial iniciou o interrogatório: - Quem é você? O que está fazendo neste lugar? Trabalha? E ele mesmo respondeu: - Acho que não! Tem cara de vagabundo! Quando Toni finalmente teve a oportunidade de responder as perguntas foi logo dizendo que era professor, que trabalhava para o Estado, que pagava seus impostos, que tinha o direito de estar no lugar que quisesse e que estava ali somente para relaxar depois de um dia tenso de trabalho.
        O policial pigarreou meio sem jeito, foi até o policial mais graduado e perguntou muito baixo se podia liberar o professor. A resposta foi negativa, com a seguinte justificativa: “desculpa aí, véi, se liberamos você, desmoraliza a ação”. Ao final da revista, sem pedir desculpas, liberaram Toni. 
        Seu santo projeto de descanso daquele dia estava definitivamente fracassado e o que lhe restava era voltar para casa, ligar seu ventilador e tentar dormir o resto da noite naquele calor infernal. Que dia complicado!

OS RATOS



OS RATOS

                                              (por Marta Soto)


Muitas vezes as pessoas passam por situações inusitadas. Marina morria de medo de dormir em casa sozinha apesar de pagarem uma empresa de segurança para vigiar a casa. Ficava apavorada só de pensar que poderia entrar um ladrão e surpreendê-la. Sentia até calafrios de imaginar-se diante de um larápio. Para piorar, seu marido fazia freqüentes viagens a negócio e costumava ficar alguns dias fora de casa. Nestes dias, ela apelava para um sobrinho e pedia que lhe fizesse companhia enquanto o marido não chegava para sentir-se mais confortável. Cícero já estava acostumado com os pedidos da tia e sempre que o tio viajava lá estava ele, solícito, pronto para ser o acompanhante oficial daquela senhora cheia de medos. Tudo sempre corria bem. Ele chegava, os dois jantavam, conversavam animados enquanto ela lavava as louças do jantar, riam bastante, depois assistiam à televisão e por fim iam dormir. Essa era a rotina de todos os dias. Mas...

Naquela noite, porém, o insólito e quase improvável aconteceu porque o bairro era bastante tranquilo e o vigia noturno passava de meia em meia hora pela rua. Os dois já haviam se recolhido aos quartos quando ouviram algo caminhando pelo teto. Saíram novamente para a cozinha de onde vinham os ruídos e silenciosamente passaram a prestar atenção ao mínimo de barulho que aparecesse.  Os ruídos recomeçavam a cada instante e os dois foram tomados pelo pavor. Olhavam um para o outro, emudecidos e faziam gestos, apontando para cima para uma clarabóia que havia no teto da cozinha porque era de lá que estavam saindo os ruídos. Cícero, que já era gago por natureza, ficou mais gago ainda, mas, apesar do medo, quis mostrar valentia e proteção à sua tia que nele confiava. Trêmulo, foi até em baixo da clarabóia, acompanhado de um pedaço de pau e gritava com sua voz gaguejando: - sa- sa – sa –sa- sai daí cabra sem vergonha! Que – que – que eu vou te  pe – pe- gar! A - a - aqui tem macho, cabra! E o marginal não respondia nada.

Nestas alturas, Cícero e Marina já estavam molhados de suor de tanto medo e prontos para correr porta afora gritando caso acontecesse de o ladrão abrir a clarabóia e entrar na casa. De repente, os ruídos cessaram, mas Marina e Cícero ficaram acordados até amanhecer o dia a olharem para o teto com receio de que o “ladrão” os surpreendessem dormindo. De manhã, muito cansados, mas já passado o susto, Cícero se sentiu orgulhoso de si próprio e acreditou que fora sua valentia que havia espantado o ladrão.

Contou o caso para a família se ufanando de ter espantado o “bandido” com sua coragem e o mais engraçado era que a história ia aumentando a cada vez que ele a contava.

Dias depois, descobriu-se uma ninhada de ratos que corriam animados pelo teto da casa e o dedetizador foi chamado para dedetizar a casa. Após o serviço feito ele disse que provavelmente os ruídos noturnos eram causados por aquelas criaturinhas que com fome caminhavam incessantemente à procura de alimentos assim que percebiam que não havia mais ninguém que os espantasse.

terça-feira, 20 de maio de 2014

POEMAS (por Marta Soto)



                        TRAVESSIA

Caminhemos!

A estrada é longa e precisamos chegar ao final dela

Encontraremos muitas flores no caminho

E alguns espinhos tentarão atrapalhar nossa chegada

A vida, amigos, é plena de beleza para quem sabe vivê-la

E árdua para quem só vê tristeza

Então, que venham os momentos felizes

Transporemos as barreiras

Atravessaremos as pontes

Encontraremos o campo cheio de flores

Cantaremos,

Dançaremos,

Viveremos!





INDECISÃO 
            

Um fio de luz entra pela fresta da cortina entreaberta

Então me lembro que é hora de me levantar

Abro-a janela e vejo o sol brilhar

Os pássaros no céu em revoada

Fazendo algazarras no azul anil

As pessoas na rua caminhando apressadas

Para sua rotina matinal

O dia iniciou!

E eu?

Levanto-me?  Ou volto a me deitar?

Devo prosseguir?

Ou dar o grito que ficou sem dar?

Calo-me e mais um dia começo

Como todos os outros

Sem me conformar

E uma luta interna recomeça

Quando será que isso vai mudar?




                               CERTEZA

Não quero o barulho das multidões nas ruas
Nem tampouco o silêncio das madrugadas
Porque às vezes sou ternura
Outras vezes, um vulcão em erupção
Às vezes sou sorriso
Colo, abraço
Outras vezes sou tristeza, solidão
Sou aprendiz da vida, com urgência,
Porque a vida é breve, é fugaz,
E eu só quero mesmo dessa vida
 A medida certa para ser feliz.




VIVER

Coisas que eu gostava de fazer:

Caminhar na chuva,

Dar gargalhadas de qualquer bobagem,

Perdendo quase a respiração,

Tomar sorvete de casquinha,

Ter muitos e grandes amigos.

Dançar até o final do baile

E sair só quando terminasse a última canção,

Depois, comer pastel na feira,

Voltar pra casa já amanhecendo.

As coisas simples são as mais felizes!

Fazia tudo o que queria fazer,

E era exatamente o que eu queria ser.

Vivia com simplicidade

Aproveitando o melhor de tudo

E tudo na medida certa

Porque ser feliz dependia só de mim.





FELICIDADE DE GIZ

Ninguém precisa ser feliz o tempo todo
Nem fingir que é o melhor a todo instante
Pois na vida encontramos obstáculos
Que faz  com que sejamos inconstantes
Os obstáculos, podemos contorná-los
 Ignorá-los e seguir em frente,
Ou esbarrarmos neles e fingir que não os vimos.
Pra muita gente a vida é um grande palco
Porque vive nesse mundo  a representar
Finge que é feliz
Que tudo está certo quando vive em turbilhões dentro de si
Essa felicidade, amiga, é falsa
É como o giz que ao escrevermos esfarela
E sobra o pó ao final de cada escrita.
Assim também o fingimento acaba
No momento em  que a plateia vai embora
E a sós, consigo mesma,
Precisa encarar a realidade.