Como definir Cícero? Era pura simpatia, sempre sorrindo e
uma enorme vontade de viver. Fazia amigos com facilidade porque tinha uma alma grande e espírito elevado, sempre pronto a ajudar quem
precisasse sem nenhuma preguiça. Apesar de suas limitações, não as via como obstáculos para aprender
ou fazer qualquer coisa. Ele era prestativo e gostava da vida. Com sua
bicicleta, rodava por toda a cidade, percorrendo quilômetros diariamente para ocupar
seu tempo e quando ouvíamos alguém dizer que ele os visitara em algum lugar muito
longe, sabíamos que era verdade porque para ele não havia distância que não
a transpusesse. Era querido por todos que o conheciam, e vivia sorrindo, de bem com a vida.
Inteligente, mesmo com todas as dificuldades impostas por sua
enfermidade, conseguiu estudar até o científico, na escola mais tradicional, o
Gastão Vidigal. Aprendeu a tocar alguns instrumentos lendo as partituras com muita
facilidade. Tocava sanfona e se ariscava em um órgão, teclado e até mesmo um
piano. Aprendeu também a dirigir e se encantava quando alguém confiava e lhe oferecia um
carro para que ele dirigisse.
Ele era o filho mais velho, andou somente aos quatro anos
de idade e começou a falar tardiamente, com muita dificuldade porque tinha um
grau bastante acentuado de surdez. Nunca foi levado ao médico para ter um
diagnóstico preciso da doença por causa da falta de recursos financeiros da família e de
sempre morarem na zona rural, bem distante das cidades, (naquele tempo tudo era
mais difícil, principalmente quando as pessoas eram simples). Conforme ele foi
crescendo, a família foi percebendo suas dificuldades e limitações e que os
problemas eram, em sua maioria, do fato dele não ouvir bem.
Mamãe contava várias histórias a cerca de seu nascimento
para justificar a doença. Contava ela que certa noite estava deitada em uma
rede quando meu pai entrou com uma espingarda e lhe disse bem baixinho que se
levantasse da rede. Ela muito curiosa seguiu o olhar dele até o teto de palha e
viu com muito horror uma cobra enorme acima de sua cabeça. Deu um salto enorme
já gritando e ele atirou na cobra que caiu no mesmo instante na rede em que ela
estava deitada. Segundo ela, o susto que levou provavelmente foi a causa dos
problemas do filho. Mais tarde, já adulto, descobrimos que a doença que o
acometera durante toda a vida era genética e que provavelmente alguém da
família no passado já tivera a mesma enfermidade.
Era um filho especial que mamãe tratava com muito
carinho, cuidados e mimos super protegendo-o de tudo. Lembro-me de um dia em
que Cícero chegou a nossa casa chorando muito, soluçando tanto que ninguém
conseguia fazê-lo parar. Mamãe desesperou e me mandou correndo até a casa de
minha avó e de minha tia que ficavam no mesmo quarteirão, saber o que havia
acontecido. Ninguém sabia de nada e ele também não contou. Dormiu chorando
cercado de todos os cuidados. Hoje penso que talvez ele tivesse depressão, mas
na época ninguém falava nesta doença. Quando mamãe se foi, não se esqueceu de
recomendar a todos nós que cuidássemos dele. Foi sua maior preocupação!
Ele viveu assim por muitos anos quando de repente
sentimos que alguma coisa errada estava acontecendo com ele. Quando chegava a
nossa casa percebíamos que ele arrastava os pés para andar. Observamos isto,
mas nem imaginávamos o que estaria por vir. Dizíamos para ele: “Cícero, não
arraste os pés! Ele ria! Então, ele passou a nos contar que havia caído da
bicicleta na frente de um carro e começamos a ficar preocupados seriamente com
ele. Eu disse para ele que iria fazer um lembrete com seu nome e endereço para
ele andar no bolso. Ele não gostou da ideia e paramos por aí. Minha irmã Neuza
passou a levá-lo no SUS para consultas que nunca chegava a nenhuma conclusão.
Certo dia, eu disse que o levássemos a um neurologista para uma consulta
particular. A partir desse momento, começamos a descobrir o que realmente ele
tinha.
Exames computadorizados minuciosos foram feitos até que o
doutor nos chamou e finalmente nos disse o que realmente ele tinha. A doença
era degenerativa e se chamava ELA (Esclerose Lateral Amiantrófica). O médico nos
preveniu que a doença dele era genética e que ele aos poucos perderia os
movimentos e que iria sentir muita falta de ar porque seus pulmões iriam se
comprimir conforme os músculos fossem secando e a partir desse momento ele
poderia entrar em óbito. Choramos muito mais não contamos para ele. Ficamos
conversando e tentando buscar uma solução. Pensamos em levá-lo para Curitiba,
porém, desistimos por saber que não adiantaria de nada. Dessa forma, vimos
nosso irmão definhar aos poucos, sem podermos fazer muita coisa por ele. O levávamos
às consultas periódicas mesmo sabendo que seriam paliativas e somente
retardariam o óbito.
Em seu momento final, o sofrimento foi insuportável! De
hospital em hospital nos revezávamos nos cuidados. Ele sempre calado, sem
reclamar, suportava todo o sofrimento. Creio que ele acreditava que podia se
curar. Perdeu os movimentos das mão, dos pés, sempre inchados por falta de
circulação, e por fim já se alimentava
por meio de uma sonda. A sua magreza era assustadora devido à forma de
alimentação. Olhávamos para ele e víamos toda a dor estampada em seu rosto,
contudo, sem reclamar. Aquele Anjo se foi em uma manhã fria e triste de julho. Ficamos muito sentidos,
porém, conformados porque sabíamos que estava melhor assim. Ele se foi como
todos nós iremos um dia e deixou saudades de suas falas inesquecíveis que nos
faziam rir muito. Saudades, irmão! Mas
uma saudade que sabemos que é de amor que temos por você e que sempre vamos nos
recordar dos bons momentos que passamos juntos.