A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

terça-feira, 13 de maio de 2014

REMINISCÊNCIAS




Retrato na parede
por Marta Soto


Hoje a nossa antiga casa está vazia. Tornou-se um lugar frio e deserto. Caminho pelos cômodos e ainda ouço nossas vozes e a voz de minha mãe ecoando pela casa – parem já com esse barulho! – chamando-nos todos pelos apelidos que nós mesmos colocávamos uns nos outros enquanto catávamos café na mesa redonda que havia na sala. Engraçado que os apelidos começavam todos com a letra C e ficava mais engraçado ainda quando ela, nervosa, repetia um por um: - O que é isso, dizia ela, - é chico, é chorro, é chola, é chila; e nós caíamos na gargalhada porque percebíamos a sequência dos nomes ditos com rapidez por ela.

Chola era o diminutivo de Mané pacholinha, que era um boneco feito de pau e ficava pendurado por dois barbantes girando no ar. Chamávamos meu irmão Laércio assim porque gostava de subir no teto da casa de madeira (não havia forro), e ele se balançava pendurado pelos pés nas vigas de sustentação com a maior facilidade. Chorro era o diminutivo de cachorro e este era o apelido do meu irmão José que sempre voltava da rua com um cachorro vira-lata para criar. Chico era o diminutivo de Chico Duro. Esta era a minha irmã Edileusa que andava durinha e sempre de shorts de elástico nas pernas. Era briguenta e minha mãe fazia sempre os shorts largos e com elástico nas pernas para que ela não mostrasse a calcinha. Chila, que era o diminutivo de mochila e era o apelido da Neusa (bunda de mochila) porque ela era bem miúda e magra. Os outros filhos também tinham apelidos, porém, não começavam com a letra C. Éramos nove filhos, mas dois se foram ainda bebês. Enfim, neste dia ela percebeu o porquê das risadas e acabou rindo muito conosco.

Ainda hoje ouço a voz de minha mãe. Vejo-a na máquina de costura, no início, ela usava uma máquina de costura manual e depois, uma de pedal, (PFAF,ainda me lembro da marca), fazendo roupas para nós. Tudo era feito por ela, desde as calcinhas de brim brancas até as blusas de frio de flanela, que se desgastavam de tanto uso e só eram trocadas por outra quando o furo do cotovelo chegava mais acima do braço. Com o passar dos anos, a vista foi encurtando e ela me pedia que colocasse a linha na agulha para que ela pudesse costurar. Eu ria muito dela e não entendia como podia alguém não enxergar um buraco de agulha: (hoje eu sei).

Ouço a voz dela cantando (mamãe tinha uma linda voz), e me lembro que ela gostava muito de cantar quando estava alegre.

Sinto o cheiro gostoso da comida que mamãe fazia com o pouco que tinha (a vida era muito difícil), e que vinha do fogão à lenha, que ficava no canto da cozinha com uma chaminé. Nos dias mais frios de inverno era nele que nos aquecíamos todos juntos em volta do fogão.

 Lembro-me do tambor que ficava embaixo da janela da cozinha para recolher a água da chuva e juntava aqueles bichinhos engraçados que quando a gente batia na água eles afundavam todos de uma só vez fazendo um balé divertido de se ver. (eram larvas de pernilongos mas naquele tempo ninguém falava em dengue). Um dia, o papagaio do seu Manoel, o vizinho, caiu dentro do tambor e ficou muito tempo sem que ninguém o visse lá. Quando o descobrimos ele já estava fraquinho e não resistiu. Ficamos com muita pena da avezinha, (o loro), porque era um dos nossos entretenimentos da infância.

Lembro-me dela chorando, às vezes de dor (ela tinha muitas dores), às vezes de tristeza, às vezes de saudades da família que ficou no Nordeste, às vezes de desgosto ou mágoa, não sei... Estas são lembranças tristes que eu não gosto de ter.

Lembro-me das raras vezes que saíamos a passear na casa da minha avó Antônia, conversar e ouvir meu tio tocar sanfona e também íamos a igreja ou em algum show que havia na Praça em frente a Catedral, (lembro-me de um show em especial: Elis Regina e Jair Rodrigues: Elis, linda, em um vestido cor de rosa bebê, cheio de pedrarias). Íamos felizes com as roupas domingueiras, e eu sempre no colo de mamãe até os oito anos, pois eu era magrinha e frágil.

Quando mamãe teve que sair para trabalhar fora para ajudar no sustento da casa chegava já escuro e nós ficávamos a espera dela na janela feita de madeira, ansiosos esperando por ela e pelas balas de coco que ela sempre trazia. Era uma alegria só porque raramente nós tínhamos alguma guloseima diferente e gostosa para comer. Ela chegava cansada do trabalho pesado que exercia o dia todo. Primeiro trabalhava em uma casa de uma família japonesa que havia mesas de jogos e depois em um restaurante (Restaurante Guairacá).

E assim fomos crescendo e ficando adultos os sete filhos, sempre debaixo das ordens dela porque ela tinha muita autoridade sobre nós. Uns se casaram, outros ficaram solteiros, enfim, cada um seguiu seu destino.

Com cinqüenta e oito anos ela descobriu um câncer de mama, mas já estava muito avançado porque ela sentia dores e uma íngua em baixo do braço e não mostrava para ninguém por vergonha. Quando já não agüentava mais ela mostrou para a minha irmã que a levou para o posto de saúde fazer exames. Detectado a doença, o médico marcou a mastectomia. Eu estava junto dela nesse momento. Ela não queria acreditar e chorou muito. Mesmo assim marcamos a cirurgia e fomos para casa com ela em prantos. Já em casa, conversamos todos os irmãos e resolvemos ouvir uma segunda opinião. Fomos a outro médico que nos disse que já não se podia extrair a mama porque aceleraria o processo e nos aconselhou ir a Curitiba consultar um especialista. Muito gentil,ele próprio ligou e marcou com a secretária e, dessa forma, quando chegamos já estavam nos esperando.

 O tratamento com quimioterapia e radioterapia iniciou-se e durante quatro anos viajamos a capital para fazer os procedimentos. Tudo parecia bem, ela estava feliz, acreditando que havia se curado, mas a doença reapareceu em outros órgãos e ela foi definhando até não agüentar mais e se foi de nossas vidas.

Que desespero, meu Deus, foi este momento para todos nós que a amávamos tanto. No hospital parecia uma romaria de filhos, parentes e amigos que mudou a rotina daquela instituição. A vida de todos parou por alguns momentos e ficamos paralisados e na expectativa do momento que ninguém queria vivenciar.  Quando o velório terminou e a deixamos em sua morada final voltamos todos para casa com uma imensa tristeza e com a sensação de estar faltando uma parte de nós. Nossa mãe querida já não vivia entre nós! Nunca mais ouviríamos a sua voz, suas risadas ou mesmo suas broncas. O silêncio da casa era imenso!  A comida não descia e tudo estava com aquele clima pesado e difícil de suportar. Caminhávamos pelos cômodos tentando ouvir os burburinhos dos dias de festa, as algazarras de nós quando crianças e até mesmo as discussões acaloradas dela com papai.

Como é difícil seguir em frente sem ela! Eu queria tanto que ela me visse formada na universidade, uma professora, como ela gostava de dizer, e que visse meus filhos crescerem, se tornarem adultos, mas não foi possível e a vida continua. Triste, mas é preciso continuar.

Agora vejo nossa casa vazia e solitária, somente os ecos do passado, as lembranças me vêm na memória e penso como éramos felizes e não sabíamos. Com muito pouco, quase nada, mas felizes. Tínhamos uma família estruturada, e ela era o alicerce, a raiz profunda que sustentava a todos nós. Em todos os momentos adversos ela nunca nos faltou, apesar de ter grande dificuldade na demonstração de carinho, sentíamos e sabíamos que ela nos amava. Guerreira, batalhadora, e uma fera quando tinha que nos defender.

Mãe, que saudades da senhora (era assim que nos dirigíamos a ela), quanta falta a senhora nos faz. Olho suas fotos e fico pensando sem acreditar que tudo se foi. Contudo, fique sabendo que a senhora não se tornou apenas um retrato na parede. A senhora vive em nossos corações. As recordações são muitas. Gosto de lembrar-me com saudades daquele tempo bom que não volta mais.

DONA ANTÔNIA



 Por Marta Soto

Era 1933, o lugarejo se chamava Medéia, e ficava perto de Triunfo, um pouco para lá de Serra Talhada, em Pernambuco. A tristeza da seca era medonha. Antônia olhava para o céu e nada de chuva. A seca era inclemente. Sem chuva, não haveria comida para alimentar os filhos. As crianças choravam e pediam comida. Esta história me foi contada pelo meu tio José, que era uma das crianças, aliás, o mais velho, com 10 anos de idade. O mais novo estava doente. Ela olhava para todos os filhos e não sabia o que fazer. Então, se ajoelhou e rezou para que o Senhor levasse o bebê doente para parar de sofrer. Uma difícil decisão, porque as mães sempre rezam para os filhos viverem, mas, a vida era tão dura e sofrida e não havia como curar a enfermidade da criança de modo que não poderia ser diferente. E Deus atendeu as suas preces e assim aconteceu.
Depois de enterrar o menino, Antônia e seu marido decidiram partir em busca de alimento porque sabiam que era fundamental para que seus filhos sobrevivessem. Ela tinha uma irmã que era muito rica, mas morava no Ceará,em uma cidade que se chamava Caiçarinha, que ficava na divisa com Pernambuco. Então Antônia colocou os dois meninos menores na égua, sentados nos dois caçuás, feitos de cipó e presos em uma cangalha no meio e seguiram viagem com os três meninos maiores a pé. Foram muitos dias e muitas noites de caminhada. Um ou outro filho reclamava do cansaço, da sede, da fome. Ela os olhava com ternura, mas emudecia e seguiam viagem. Sabia que tinha de ser dura para conseguir chegar ao seu destino. Dessa maneira, foi por muitos dias, caminhando no sol escaldante durante o dia e parando para dormir quando a noite chegava, nos ranchos que eram feitos pelos romeiros de padrinho padre Cícero que improvisavam para repousar na beira da estrada. Assim fizeram até chegarem à fazenda de sua irmã Maria Rosa. Lá os meninos se alegraram porque tinha fartura de comida e água.
A primeira coisa que fizeram foi entrar em um quarto grande onde a família estocava queijos. Eram muitos queijos e os meninos comeram e comeram até se fartar. Em seguida, veio a diarréia, por eles terem ficado muitos dias sem se alimentar e, gulosamente, comeram demais. Foram para o terreiro e ali mesmo desocuparam a barriga, mudando de lugar a cada defecada.
Ficaram ali por um ano, morando em um rancho pobre e plantando feijão de corda e milho, porém, ficaram sabendo que a seca havia acabado com a chegada das chuvas, e então puderam voltar para a sua terra natal.
Mulher obstinada, sofrida e forte, Antônia recolheu seus filhos e voltaram todos para Pernambuco novamente.
Nos anos seguintes, a vida pouco mudou. Nasceram mais um filho e duas filhas e Antônia continuou sua luta contra todas as adversidades e fez de seus filhos e filhas pessoas fortes e determinadas.
Anos mais tarde, com os filhos já grandes e três já casados, inclusive, papai e mamãe com três filhos, se aventuraram novamente, em uma nova viagem em busca de um destino melhor. De pau de arara, viajaram milhares de quilômetros, primeiro para São Paulo, depois para o Paraná, de onde nunca mais saíram. Criaram raízes neste novo lugar e Antônia cumpriu sua missão.
Já velha, linda, com seus vestidos rodados e coloridos com flores grandes, lenço na cabeça e com sua sombrinha para se esconder do sol, Antônia passeava pela cidade, sem nunca se esquecer de outrora, mas orgulhosa de ter escrito a sua história, a de seus filhos e netos de forma diferente. Essa parte da história não me chegou pelas palavras de meu tio, eu a vivenciei e a imagem dessa senhora gorda alegre, está em minha mente porque fez parte da minha infância. Esta senhora feliz e cheia de disposição era minha avô.