Retrato
na parede
por Marta Soto
Hoje a nossa antiga casa está vazia. Tornou-se um lugar
frio e deserto. Caminho pelos cômodos e ainda ouço nossas vozes e a voz de
minha mãe ecoando pela casa – parem já com esse barulho! – chamando-nos todos
pelos apelidos que nós mesmos colocávamos uns nos outros enquanto catávamos
café na mesa redonda que havia na sala. Engraçado que os apelidos começavam
todos com a letra C e ficava mais engraçado ainda quando ela, nervosa, repetia
um por um: - O que é isso, dizia ela, - é chico, é chorro, é chola, é chila; e
nós caíamos na gargalhada porque percebíamos a sequência dos nomes ditos com
rapidez por ela.
Chola era o diminutivo de Mané pacholinha, que era um
boneco feito de pau e ficava pendurado por dois barbantes girando no ar. Chamávamos
meu irmão Laércio assim porque gostava de subir no teto da casa de madeira (não
havia forro), e ele se balançava pendurado pelos pés nas vigas de sustentação
com a maior facilidade. Chorro era o diminutivo de cachorro e este era o
apelido do meu irmão José que sempre voltava da rua com um cachorro vira-lata
para criar. Chico era o diminutivo de Chico Duro. Esta era a minha irmã
Edileusa que andava durinha e sempre de shorts de elástico nas pernas. Era
briguenta e minha mãe fazia sempre os shorts largos e com elástico nas pernas
para que ela não mostrasse a calcinha. Chila, que era o diminutivo de mochila e
era o apelido da Neusa (bunda de mochila) porque ela era bem miúda e magra. Os
outros filhos também tinham apelidos, porém, não começavam com a letra C.
Éramos nove filhos, mas dois se foram ainda bebês. Enfim, neste dia ela
percebeu o porquê das risadas e acabou rindo muito conosco.
Ainda hoje ouço a voz de minha mãe. Vejo-a na máquina de
costura, no início, ela usava uma máquina de costura manual e depois, uma de
pedal, (PFAF,ainda me lembro da marca), fazendo roupas para nós. Tudo era feito
por ela, desde as calcinhas de brim brancas até
as blusas de frio de flanela, que se desgastavam de tanto uso e só eram trocadas
por outra quando o furo do cotovelo chegava mais acima do braço. Com o passar
dos anos, a vista foi encurtando e ela me pedia que colocasse a linha na agulha
para que ela pudesse costurar. Eu ria muito dela e não entendia como podia
alguém não enxergar um buraco de agulha: (hoje eu sei).
Ouço a voz dela cantando (mamãe tinha uma linda voz), e
me lembro que ela gostava muito de cantar quando estava alegre.
Sinto o cheiro gostoso da comida que mamãe fazia com o
pouco que tinha (a vida era muito difícil), e que vinha do fogão à lenha, que
ficava no canto da cozinha com uma chaminé. Nos dias mais frios de inverno era
nele que nos aquecíamos todos juntos em volta do fogão.
Lembro-me do
tambor que ficava embaixo da janela da cozinha para recolher a água da chuva e
juntava aqueles bichinhos engraçados que quando a gente batia na água eles
afundavam todos de uma só vez fazendo um balé divertido de se ver. (eram larvas
de pernilongos mas naquele tempo ninguém falava em dengue). Um dia, o papagaio
do seu Manoel, o vizinho, caiu dentro do tambor e ficou muito tempo sem que
ninguém o visse lá. Quando o descobrimos ele já estava fraquinho e não
resistiu. Ficamos com muita pena da avezinha, (o loro), porque era um dos
nossos entretenimentos da infância.
Lembro-me dela chorando, às vezes de dor (ela tinha
muitas dores), às vezes de tristeza, às vezes de saudades da família que ficou
no Nordeste, às vezes de desgosto ou mágoa, não sei... Estas são lembranças tristes
que eu não gosto de ter.
Lembro-me das raras vezes que saíamos a passear na casa
da minha avó Antônia, conversar e ouvir meu tio tocar sanfona e também íamos a
igreja ou em algum show que havia na Praça em frente a Catedral, (lembro-me de
um show em especial: Elis Regina e Jair Rodrigues: Elis, linda, em um vestido
cor de rosa bebê, cheio de pedrarias). Íamos felizes com as roupas domingueiras,
e eu sempre no colo de mamãe até os oito anos, pois eu era magrinha e frágil.
Quando mamãe teve que sair para trabalhar fora para
ajudar no sustento da casa chegava já escuro e nós ficávamos a espera dela na
janela feita de madeira, ansiosos esperando por ela e pelas balas de coco que
ela sempre trazia. Era uma alegria só porque raramente nós tínhamos alguma
guloseima diferente e gostosa para comer. Ela chegava cansada do trabalho
pesado que exercia o dia todo. Primeiro trabalhava em uma casa de uma família
japonesa que havia mesas de jogos e depois em um restaurante (Restaurante Guairacá).
E assim fomos crescendo e ficando adultos os sete filhos,
sempre debaixo das ordens dela porque ela tinha muita autoridade sobre nós. Uns
se casaram, outros ficaram solteiros, enfim, cada um seguiu seu destino.
Com cinqüenta e oito anos ela descobriu um câncer de
mama, mas já estava muito avançado porque ela sentia dores e uma íngua em baixo
do braço e não mostrava para ninguém por vergonha. Quando já não agüentava mais
ela mostrou para a minha irmã que a levou para o posto de saúde fazer exames. Detectado
a doença, o médico marcou a mastectomia. Eu estava junto dela nesse momento.
Ela não queria acreditar e chorou muito. Mesmo assim marcamos a cirurgia e
fomos para casa com ela em prantos. Já em casa, conversamos todos os irmãos e
resolvemos ouvir uma segunda opinião. Fomos a outro médico que nos disse que já
não se podia extrair a mama porque aceleraria o processo e nos aconselhou ir a
Curitiba consultar um especialista. Muito gentil,ele próprio ligou e marcou com
a secretária e, dessa forma, quando chegamos já estavam nos esperando.
O tratamento com
quimioterapia e radioterapia iniciou-se e durante quatro anos viajamos a capital
para fazer os procedimentos. Tudo parecia bem, ela estava feliz, acreditando
que havia se curado, mas a doença reapareceu em outros órgãos e ela foi
definhando até não agüentar mais e se foi de nossas vidas.
Que desespero, meu Deus, foi este momento para todos nós
que a amávamos tanto. No hospital parecia uma romaria de filhos, parentes e amigos
que mudou a rotina daquela instituição. A vida de todos parou por alguns
momentos e ficamos paralisados e na expectativa do momento que ninguém queria
vivenciar. Quando o velório terminou e a
deixamos em sua morada final voltamos todos para casa com uma imensa tristeza e
com a sensação de estar faltando uma parte de nós. Nossa mãe querida já não
vivia entre nós! Nunca mais ouviríamos a sua voz, suas risadas ou mesmo suas
broncas. O silêncio da casa era imenso! A comida não descia e tudo estava com aquele
clima pesado e difícil de suportar. Caminhávamos pelos cômodos tentando ouvir
os burburinhos dos dias de festa, as algazarras de nós quando crianças e até
mesmo as discussões acaloradas dela com papai.
Como é difícil seguir em frente sem ela! Eu queria tanto
que ela me visse formada na universidade, uma professora, como ela gostava de
dizer, e que visse meus filhos crescerem, se tornarem adultos, mas não foi
possível e a vida continua. Triste, mas é preciso continuar.
Agora vejo nossa casa vazia e solitária, somente os ecos
do passado, as lembranças me vêm na memória e penso como éramos felizes e não
sabíamos. Com muito pouco, quase nada, mas felizes. Tínhamos uma família
estruturada, e ela era o alicerce, a raiz profunda que sustentava a todos nós. Em
todos os momentos adversos ela nunca nos faltou, apesar de ter grande
dificuldade na demonstração de carinho, sentíamos e sabíamos que ela nos amava. Guerreira,
batalhadora, e uma fera quando tinha que nos defender.
Mãe, que saudades da senhora (era assim que nos
dirigíamos a ela), quanta falta a senhora nos faz. Olho suas fotos e fico pensando
sem acreditar que tudo se foi. Contudo, fique sabendo que a senhora não se
tornou apenas um retrato na parede. A senhora vive em nossos corações. As recordações
são muitas. Gosto de lembrar-me com saudades daquele tempo bom que não volta
mais.
