A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

JOSÉ (por Marta Soto)





   José era um garoto doce que vivia a brincar com os animais. Sempre que saia para a rua voltava para casa com um cachorro a tiracolo. Esse costume valeu-lhe o apelido de Zé cachorro. 
    Seu sonho era ter uma bicicleta, assim ele começou a trabalhar muito cedo com seu padrinho e nosso tio José, de quem ele herdou o nome. Ele sempre se orgulhou de ter recebido o mesmo nome do tio com o final acrescido da palavra "Sobrinho" e sempre que alguém lhe perguntava o nome ele rapidamente dizia que era "José Tomé de Lima Sobrinho", com aquele típico sotaque nordestino carregado enfatizando sempre a letra ó, como somente ele podia dizer. Assim que ganhou seu primeiro dinheiro comprou uma bicicleta usada para poder ir ao trabalho e fazer seus passeios quando podia. 
    Fazia pequenos serviços na construção civil e começou a aprender o ofício que o sustentaria para sempre. Ele era o segundo filho dos sete que restaram.
    Como a família era numerosa e o dinheiro era pouco para sustentar tantas bocas, todo alimento era muito bem dividido para que todas as crianças pudessem se alimentar por igual. Neste item José não concordava e achava sempre que o seu quinhão era menor. Chorava, reclamava e se lamentava que só. Todos já conheciam aquelas lamúrias, mas ninguém fazia caso.
    Todo dia passava o padeiro com seu carrinho de alumínio atrelado ao seu cavalo cheio de pães, buzinando e avisando a toda a vizinhança que o pão estava chegando. Era uma festa quando ele chegava. Mamãe saia no quintal e acenava para ele, que parava prontamente. Descia da carroça e abria o local onde acomodava os pães. Pão sovado, baguete, pão doce, broa de milho e todos os tipos de pães que se podia imaginar. O cheiro entrava pelas nossas narinas e a vontade de comer aquelas delícias crescia. Como o dinheiro era curto dava somente para comprar um baguete que seria compartilhado por todos. Então ela fazia o café, e dividia meticulosamente o pão para cada um dos filhos. Os nossos olhos brilhavam e comíamos até os farelos que caiam na toalha. Não desperdiçávamos nenhuma casquinha que fosse de tanto que nós gostávamos.
    Certo dia, mamãe repartiu o pão e distribuiu um pedaço para cada um dos filhos. José ficou com o bico. Comeu reclamando, choramingando e dizendo que o dela havia sido menor do que os outros. Ela o deixou comer e quando terminou o mandou buscar mais na vendinha do Osório. Ele foi, mas sem saber que todos os pães seriam somente para ele. Quando chegou, mamãe mandou que ele se sentasse e começasse a comer. Ele ficou feliz e assim foi comendo, comendo e quando já estava farto disse à ela que não queria mais. Foi então que ele ouviu surpreso que teria que comer todos. Ele continuou a comer, mas já sem o entusiasmo inicial. Já empanturrado, dizia que não queria mais, porém mamãe, com a cinta na mão disse-lhe que comesse senão apanharia. Assim, comeu todos os pães e esta foi uma lição que ele nunca mais se esqueceu. Daí em diante, todas as vezes que o pão era dividido ele comia seu pedaço sem questionar, pois tinha aprendido a duras penas.
    Hoje sempre que nos reunimos, contamos algumas das travessuras de infância e esta é uma das histórias que nunca deixamos de relembrar e rir as largas.

VIDA (por Marta Soto)



      
     Muitas vezes a vida nos prega peças. Fazemos planos, sem pensar que tudo pode mudar de repente por este ou aquele motivo. A gente sempre pensa somente no lado positivo e descartamos qualquer possibilidade que seja de nossos planos darem errado.

     2010 foi um ano assim: tinha tudo para ser maravilhoso sentimento que desejamos em cada início de um novo ano. Quando iniciou, fiquei imensamente feliz porque só estavam acontecendo coisas boas: fui selecionada para fazer o PDE e assim eu ficaria durante um ano, afastada do trabalho para estudo. Pensei, feliz, que aquele seria um ano gratificante. No entanto, quanta coisa aconteceu naquele ano, meu Deus! Algumas foram tão terríveis que eu não gosto nem de me lembrar...!

    De repente, quase sem querer, descobri dois caroços em meu seio esquerdo. As lembranças de minha mãe rapidamente me vieram na memória porque estive junto a ela em cada etapa da descoberta da doença e assim corri para fazer os exames. Ao receber os resultados descobri que estava com câncer de mama e quase desabei. Era um sentimento confuso. Uma angústia enorme tomou conta de mim naquele momento. Pensei na morte, em minha família e senti uma enorme pena de deixar esta vida.

    O susto foi maior ainda quando o doutor me disse que eu teria que extrair a mama esquerda, esvaziar toda a axila para ser uma cirurgia de segurança, que cairiam todos os meus cabelos por causa da quimioterapia, e que teria que passar por várias sessões de radioterapia.

    Como a maioria das mulheres, sou vaidosa e adoro passar algum tempo em frente ao espelho me arrumando. De repente, tudo isso foi suplantado pela ideia de morrer. A primeira coisa que me veio à cabeça foi como ficariam meu marido, meus filhos! Enchi os meus olhos de lágrimas, e vim em silêncio no carro, pensando! Meu marido também não conseguia pronunciar uma palavra! Estava estático, quase que congelado sem externar nenhum pensamento.          
     Mas foi somente naquele instante porque em seguida fiz-me forte e pensei comigo mesma que a coisa mais importante para mim, era lutar pela vida. Lembrei-me de minha mãe chorando pelo fato de retirar a mama e pensei que comigo seria diferente. Ao contrário dela, eu não ficaria com pena de perder uma parte de meu corpo porque desse ato dependeria minha vida. Eu não podia perder tempo porque cada minuto era precioso e faria a diferença entre viver e morrer. Procurei me convencer de que eu ia conseguir.

    Tive uma sorte enorme porque, diferente de minha mãe, eu descobri os nódulos a tempo, quando ainda eram pequenos e hipoteticamente resolveria todo o problema extraindo o seio e esvaziando a axila.

           Os dias que antecederam a cirurgia pareceram séculos. A agonia da espera, a ânsia de ver tudo terminado, a vontade de que tudo desse certo, e o mais importante, a aceitação depois da operação fez com que aquele dia demorasse demasiado. Sentimentos contraditórios tomavam conta de mim. Ora queria retirar o seio para me curar, ora pensava no lado estético que estaria deformada para sempre, contudo, sabia que era preciso transpor este obstáculo.

          No dia da cirurgia, fui para o hospital e me encaminharam para um quarto para que aguardasse ser chamada. Deitei-me na cama e minha irmã Maria que estava comigo, leu alguns versículos da bíblia tentando me acalmar. Por incrível que pareça, eu estava calma e só queria que aquele momento terminasse logo. Neste instante o enfermeiro chegou à porta do quarto e me chamou pelo nome dizendo que estava na hora, e só então começou o meu pavor. Pavor em silêncio!  Ele me colocou na maca e foi me levando corredor acima. Meus pensamentos se aceleravam e as lágrimas teimavam em rolar dos meus olhos em silêncio. O enfermeiro percebeu a minha agonia e a minha tristeza e falou comigo alguma coisa que não me recordo, tentando me acalmar. Aquele caminho me pareceu tão longo, quase sem fim. Chegamos à sala de cirurgia. A equipe que auxiliaria no procedimento cirúrgico já estava lá, mas o doutor ainda não. Esses minutos que antecederam a operação me pareceram eternos! Eu ouvia as enfermeiras conversando entre si variedades de assuntos, despreocupadas, rindo indiferentes, pois tudo aquilo fazia parte da rotina delas. Eu, desesperada, procurava distanciar meus pensamentos para que aquele momento desaparecesse, como se fosse possível apagar, mudar a minha sorte, ou qualquer coisa assim. No meio de tantos pensamentos confusos, chegou o anestesista e começou os preparativos. Enfim, chegara o momento que modificaria minha vida para sempre. Ele conversava comigo enquanto aplicava a anestesia e eu fui apagando até não ver mais nada.

    Não sei quanto tempo demorou. Estava acordando da anestesia e senti que eu estava sendo levada de volta para o quarto na maca. Ouvi a voz de meu marido, de minha filha e de minhas duas irmãs. Já no quarto, fui voltando aos poucos e vi aquele dreno cheio de sangue ao meu lado. Sabia que estava tudo consumado. A cirurgia correra bem e cá estava eu viva e pronta para começar de novo: me reinventar. No outro dia, me levantei tomei um banho, penteei os meus cabelos, passei o batom e pensei comigo: nada vai mudar!

        Em casa, quando me olhei no espelho e vi o espaço do seio vazio chorei um pouco, mas logo me refiz. Enfrentei todas as sessões de quimioterapia (foram seis meses) e 28 sessões de radioterapia com uma coragem que eu nem imaginava que tinha. Vi meus cabelos caírem cada vez que os penteava até todos os pelos do corpo desaparecer. Comprei duas perucas e decidi que as usaria até os meus cabelos começarem a nascer de novo, e assim foi. Não queria que me vissem com cara de doente e que as pessoas me olhassem com piedade. Queria parecer como sempre fui.

    Poucas pessoas me viram sem cabelo e muitas vezes no hospital algumas pessoas me perguntavam o que eu estava fazendo sempre ali. A falta de apetite, as fraquezas depois de cada sessão da violenta quimioterapia foram enfrentadas por mim com mais valentia do que eu supunha ter. A vaidade me ajudou a não parecer doente e o PDE, (curso que estava fazendo quando a enfermidade foi descoberta), me ajudou a enfrentar tudo sem pensar na morte.

    Vida foi a palavra de ordem que me acompanhou durante todo o tratamento e afastei cada pensamento sobre morte com teimosia e determinação. Determinação sim porque eu estava disposta a viver e não admitia nenhuma outra possibilidade.

     Todas as adversidades que passei durante este período me deixaram infinitamente mais forte e passei a olhar a vida com mais entusiasmo. Hoje valorizo cada minuto e sei que amo a vida. Voltei ao trabalho, readaptada de função e mesmo não estando mais dando aulas que eu tanto gostava consegui me adaptar com facilidade à minha nova função. O amor de minha família foi fundamental para que eu me recuperasse porque eles são a razão para eu querer viver.

      Agora estou reconstruindo a mama que perdi e a cada etapa da cirurgia de reconstrução fico mais feliz e com uma enorme autoestima. Descobri que a felicidade é um dom e que ela está nas coisas mais simples e ao alcance de qualquer pessoa que esteja disposta a procurá-la. Aprendi também que pensar sempre positivo é fundamental para a cura das doenças. Quanto às pedras que aparecem no meio do caminho, sei que posso contorná-las, e seguir em frente tirando sempre uma lição delas.