A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

quinta-feira, 29 de maio de 2014

CRÔNICA - MÃOS PARA CIMA: UM ASSALTO À DIGNIDADE



MÃOS PARA CIMA: UM ASSALTO À DIGNIDADE
 (por Marta Soto)

        Toni era funcionário público, negro, e morava em um bairro de periferia de fama não muito boa. A má reputação adivinha do fato de este ou aquele acontecimento estar sempre nos noticiários sensacionalistas da televisão ou dos jornais locais. Sabe como é... Muita gente boa e trabalhadora faz mil ações honestas todos os dias, mas são divulgadas apenas as ruins e assim se faz a fama.
       Certa noite, Toni chegou do trabalho muito cansado, tomou um banho e já ia se deitar quando pensou em uma cerveja estupidamente gelada. Sua boca salivou e encheu-se de água. Fazia muito calor e ele se lembrou que havia um bar próximo à sua casa e que era frequentado por alguns velhos e bons amigos. Vestiu-se com uma bermuda, camiseta regata, calçou seus chinelos e saiu pensando que nada melhor para apagar aquele calor infernal do que relaxar, jogar conversa fora com seus camaradas tomando umas cervejas, jogando sinuca. No caminho foi se lembrando como fora difícil chegar a ser professor, dos empregos que havia tido ao longo de sua vida e de como foi gratificante perseverar nas horas difíceis e poder colher os frutos de sua profissão. Agora, apesar da vida de professor não ser fácil, estava muito melhor do que antes. Pelo menos tinha certo status, pensou orgulhoso de si mesmo.
        Chegou ao bar, sentou-se no balcão, pediu sua cerveja encontrou o primeiro amigo que o abraçou efusivamente. Do outro lado do bar, outros o viram e também vieram cumprimentá-lo com muita alegria como nos velhos tempos.
        Riam-se a larga quando de repente, chegou um carro da Rotam e dele desceram dois policiais. Adentraram ao bar, olharam tudo à sua volta, trocaram algumas palavras entre eles e foram apontando um a um os tipos que eles consideraram suspeitos.
        -Encostem-se na parede e abram as pernas com as mãos para cima, determinou um dos policiais.
        Toni não queria acreditar que aquilo estava acontecendo com ele. Tentou argumentar com o policial que o estava revistando, mas foi interrompido com um “cala a boca!” intimativo. Com as pernas abertas e mãos para cima Toni pensava sobre sua má sorte de estar ali justo naquele momento; e o policial seguia a revista à procura de drogas ou arma. Com os seus documentos nas mãos, o policial iniciou o interrogatório: - Quem é você? O que está fazendo neste lugar? Trabalha? E ele mesmo respondeu: - Acho que não! Tem cara de vagabundo! Quando Toni finalmente teve a oportunidade de responder as perguntas foi logo dizendo que era professor, que trabalhava para o Estado, que pagava seus impostos, que tinha o direito de estar no lugar que quisesse e que estava ali somente para relaxar depois de um dia tenso de trabalho.
        O policial pigarreou meio sem jeito, foi até o policial mais graduado e perguntou muito baixo se podia liberar o professor. A resposta foi negativa, com a seguinte justificativa: “desculpa aí, véi, se liberamos você, desmoraliza a ação”. Ao final da revista, sem pedir desculpas, liberaram Toni. 
        Seu santo projeto de descanso daquele dia estava definitivamente fracassado e o que lhe restava era voltar para casa, ligar seu ventilador e tentar dormir o resto da noite naquele calor infernal. Que dia complicado!

2 comentários:

  1. Contador de história é assim: recria com colorido novo o vivido. Parabéns, minha amiga, adorei a crônica, o tema é reconrente, e tão próximo de nós que temos sempre que denunciar.

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    1. É verdade, Leila! A todo instante ficamos sabendo de pessoas que sofrem todo tipo de preconceito e discriminação. Uns porque são negros, outros por serem gordos, magros, pobres, cadeirantes ou até mesmo por exercerem funções simples em seu trabalho são desacatados por pessoas que se julgam superiores. Sempre que eu puder usar o meu blog para reescrever histórias como estas o farei. Grande abraço!

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