AVENTURA Nº1:
Por Marta Soto
Por Marta Soto
A BONECA
Como
era bom ser criança! Esse pensamento tão frequente na cabeça de quem há muito
se distanciou da infância não é apenas saudosista, antes é alento... fôlego
para prosseguir no mundo. Pois há passatempo mais renovador que nos
relembrarmos da nossa forma mais pura (infância)? Como disse
Gabriel García Márques “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente
recorda, e como recorda para contá-la”. É bem isso mesmo, na infância as
recordações pintam de cores da inocência tudo quanto a memória permite
restituir.
Então
voltemos às reminiscências. Cada brincadeira era sempre especial e cada uma
delas tinha formatos diferentes dependendo da criança e da forma como era
criada, e pronto: aparecia uma variedade enorme de brincadeiras desde salva,
balança caixão, escravos de Jó, amarelinha, elástico, enfim as brincadeiras
podiam ser simples, mas toda criança era realmente criança no sentido pleno da
palavra, sem malícias, sem participarem da vida adulta, pois não sofrera ainda a
influência da televisão nem da mídia em geral porque naquele tempo era rara a
família que tinha um aparelho de televisão em casa. As famílias se reuniam à
noite no terreiro e os adultos contavam histórias enquanto as crianças
brincavam naquela terra vermelha e depois só lavavam os pés em uma bacia para
dormir. As brincadeiras eram simples e muitas vezes eram engraçadas. Naquela
época nem se sonhava com tecnologias e os garotos nem podiam imaginar que um
dia o homem inventaria vídeo game, tablet, computador, celular digital ou
qualquer coisa do gênero. As brincadeiras eram cheias de criatividade, e como
as crianças tinham imaginação!
Laércio, o Lóia, como sua mãe gostava de chamá-lo,
era uma dessas crianças que estava sempre criando novas brincadeiras e por isso
mesmo era querido por todos os garotos da redondeza que o procuravam
diariamente para juntos, brincarem. Era um garoto inquieto e travesso, e a sua
brincadeira predileta era caçar passarinho com seu estilingue, se é que se pode
dizer que naquela época existia uma brincadeira predileta ou era por falta de
opção, sei lá. Sempre que podia, dava aquela escapada e podia procurá-lo que
estava lá para os lados da Fazenda Maringá com seus amigos atirando mamonas com
seus estilingues para cima dos pés de cafés. Sua mãe fazia embornais de tecido
para que ele enchesse de caroço de mamona e assim ao final da tarde lá vinha
ele e seus amigos de todos os dias com os embornais cheios de passarinhos
pedindo para que ela os fritasse. Era uma farra! Os meninos mesmos depenavam as
avezinhas, sem nenhum remorso, retiravam seu intestino, as lavavam, salgavam e
ansiosamente aguardavam serem fritas. Quando o cheirinho estava delicioso
sabiam que já estava pronto seu prato preferido. Passavam na farinha de
mandioca e comiam felizes os produtos de seu trabalho diário fazendo um barulho
imenso.
Numa
manhã ensolarada, chegaram os meninos fazendo aquela algazarra e chamaram Lóia
para suas aventuras matinais. Ele vestiu–se rapidamente com as roupas simples
do dia a dia, colocou seu embornal a tiracolo não se esquecendo de seu
estilingue e rumaram para a Fazenda para exercitar sua brincadeira preferida.
Lá
pelas tantas, Lóia viu um pedaço de pano em cima de um pé de café. Mirou com
cuidado e, pronto: caiu o pacote no chão. Correu entusiasmado para pegá-lo e
para sua surpresa dentro havia uma boneca linda que mais parecia um anjo com os
cabelos louros, olhos azuis e aqueles cílios grandes que se abriam e fechavam quando a mudava de posição. Mostrou para seus amigos e resolveram voltar
para casa, pois já havia encontrado seu tesouro.
Aquela
boneca linda seria a primeira que sua irmã ganharia em toda sua vida, visto que
a sua família não possuía posses para comprar um brinquedo tão caro. De quem
seria aquela boneca? Provavelmente de uma das filhas do rico fazendeiro dono
daquele lugar que era invadido por eles diariamente para brincar escondidos do
administrador que por sinal se os pegassem passava fogo com sua espingarda de
sal. Chegou à casa, afobado e feliz, e entregou aquele brinquedo à sua irmã
menor. O brilho que surgiu nos olhos da menina era indescritível! Ela agarrou a
boneca com tanto amor e se abraçou a ela para não mais soltar e Lóia a ficou
olhando com ternura e se sentiu o garoto mais sortudo do mundo. Aquela garotinha era eu!
Que lindo...meus olhos sempre terminam cheio d'água em toda história...
ResponderExcluirOi,Evelyn. Que bom que você gosta das minhas historias. São lembranças da minha meninice que eu gosto de ter! Às vezes ficam um pouco tristes e melancólicas porque não dá para não me emocionar quando relembro de tantas coisas que vivemos e acabo emocionando também os leitores. Obrigada por estar sempre me seguindo. Beijos!
Excluir