
Por
Marta Soto
Era 1933, o lugarejo se chamava Medéia,
e ficava perto de Triunfo, um pouco para lá de Serra Talhada, em Pernambuco. A
tristeza da seca era medonha. Antônia olhava para o céu e nada de chuva. A seca
era inclemente. Sem chuva, não haveria comida para alimentar os filhos. As
crianças choravam e pediam comida. Esta história me foi contada pelo meu tio
José, que era uma das crianças, aliás, o mais velho, com 10 anos de idade. O
mais novo estava doente. Ela olhava para todos os filhos e não sabia o que
fazer. Então, se ajoelhou e rezou para que o Senhor levasse o bebê doente para parar
de sofrer. Uma difícil decisão, porque as mães sempre rezam para os filhos
viverem, mas, a vida era tão dura e sofrida e não havia como curar a
enfermidade da criança de modo que não poderia ser diferente. E Deus atendeu as
suas preces e assim aconteceu.
Depois de enterrar o menino, Antônia e
seu marido decidiram partir em busca de alimento porque sabiam que era
fundamental para que seus filhos sobrevivessem. Ela tinha uma irmã que era
muito rica, mas morava no Ceará,em uma cidade que se chamava Caiçarinha, que
ficava na divisa com Pernambuco. Então Antônia colocou os dois meninos menores
na égua, sentados nos dois caçuás, feitos de cipó e presos em uma cangalha no
meio e seguiram viagem com os três meninos maiores a pé. Foram muitos dias e
muitas noites de caminhada. Um ou outro filho reclamava do cansaço, da sede, da
fome. Ela os olhava com ternura, mas emudecia e seguiam viagem. Sabia que tinha
de ser dura para conseguir chegar ao seu destino. Dessa maneira, foi por muitos
dias, caminhando no sol escaldante durante o dia e parando para dormir quando a
noite chegava, nos ranchos que eram feitos pelos romeiros de padrinho padre
Cícero que improvisavam para repousar na beira da estrada. Assim fizeram até
chegarem à fazenda de sua irmã Maria Rosa. Lá os meninos se alegraram porque
tinha fartura de comida e água.
A primeira coisa que fizeram foi entrar
em um quarto grande onde a família estocava queijos. Eram muitos queijos e os
meninos comeram e comeram até se fartar. Em seguida, veio a diarréia, por eles
terem ficado muitos dias sem se alimentar e, gulosamente, comeram demais. Foram
para o terreiro e ali mesmo desocuparam a barriga, mudando de lugar a cada
defecada.
Ficaram ali por um ano, morando em um
rancho pobre e plantando feijão de corda e milho, porém, ficaram sabendo que a
seca havia acabado com a chegada das chuvas, e então puderam voltar para a sua
terra natal.
Mulher obstinada, sofrida e forte,
Antônia recolheu seus filhos e voltaram todos para Pernambuco novamente.
Nos anos seguintes, a vida pouco mudou.
Nasceram mais um filho e duas filhas e Antônia continuou sua luta contra todas
as adversidades e fez de seus filhos e filhas pessoas fortes e determinadas.
Anos mais tarde, com os filhos já grandes
e três já casados, inclusive, papai e mamãe com três filhos, se aventuraram
novamente, em uma nova viagem em busca de um destino melhor. De pau de arara,
viajaram milhares de quilômetros, primeiro para São Paulo, depois para o
Paraná, de onde nunca mais saíram. Criaram raízes neste novo lugar e Antônia
cumpriu sua missão.
Já velha, linda, com seus vestidos rodados
e coloridos com flores grandes, lenço na cabeça e com sua sombrinha para se
esconder do sol, Antônia passeava pela cidade, sem nunca se esquecer
de outrora, mas orgulhosa de ter escrito a sua história, a de seus filhos e netos
de forma diferente. Essa parte da história não me chegou pelas palavras de meu
tio, eu a vivenciei e a imagem dessa senhora gorda alegre, está em minha mente
porque fez parte da minha infância. Esta senhora feliz e cheia de disposição
era minha avô.
Essa história eu não conhecia...adorei! É emocionante...
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