A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

terça-feira, 13 de maio de 2014

DONA ANTÔNIA



 Por Marta Soto

Era 1933, o lugarejo se chamava Medéia, e ficava perto de Triunfo, um pouco para lá de Serra Talhada, em Pernambuco. A tristeza da seca era medonha. Antônia olhava para o céu e nada de chuva. A seca era inclemente. Sem chuva, não haveria comida para alimentar os filhos. As crianças choravam e pediam comida. Esta história me foi contada pelo meu tio José, que era uma das crianças, aliás, o mais velho, com 10 anos de idade. O mais novo estava doente. Ela olhava para todos os filhos e não sabia o que fazer. Então, se ajoelhou e rezou para que o Senhor levasse o bebê doente para parar de sofrer. Uma difícil decisão, porque as mães sempre rezam para os filhos viverem, mas, a vida era tão dura e sofrida e não havia como curar a enfermidade da criança de modo que não poderia ser diferente. E Deus atendeu as suas preces e assim aconteceu.
Depois de enterrar o menino, Antônia e seu marido decidiram partir em busca de alimento porque sabiam que era fundamental para que seus filhos sobrevivessem. Ela tinha uma irmã que era muito rica, mas morava no Ceará,em uma cidade que se chamava Caiçarinha, que ficava na divisa com Pernambuco. Então Antônia colocou os dois meninos menores na égua, sentados nos dois caçuás, feitos de cipó e presos em uma cangalha no meio e seguiram viagem com os três meninos maiores a pé. Foram muitos dias e muitas noites de caminhada. Um ou outro filho reclamava do cansaço, da sede, da fome. Ela os olhava com ternura, mas emudecia e seguiam viagem. Sabia que tinha de ser dura para conseguir chegar ao seu destino. Dessa maneira, foi por muitos dias, caminhando no sol escaldante durante o dia e parando para dormir quando a noite chegava, nos ranchos que eram feitos pelos romeiros de padrinho padre Cícero que improvisavam para repousar na beira da estrada. Assim fizeram até chegarem à fazenda de sua irmã Maria Rosa. Lá os meninos se alegraram porque tinha fartura de comida e água.
A primeira coisa que fizeram foi entrar em um quarto grande onde a família estocava queijos. Eram muitos queijos e os meninos comeram e comeram até se fartar. Em seguida, veio a diarréia, por eles terem ficado muitos dias sem se alimentar e, gulosamente, comeram demais. Foram para o terreiro e ali mesmo desocuparam a barriga, mudando de lugar a cada defecada.
Ficaram ali por um ano, morando em um rancho pobre e plantando feijão de corda e milho, porém, ficaram sabendo que a seca havia acabado com a chegada das chuvas, e então puderam voltar para a sua terra natal.
Mulher obstinada, sofrida e forte, Antônia recolheu seus filhos e voltaram todos para Pernambuco novamente.
Nos anos seguintes, a vida pouco mudou. Nasceram mais um filho e duas filhas e Antônia continuou sua luta contra todas as adversidades e fez de seus filhos e filhas pessoas fortes e determinadas.
Anos mais tarde, com os filhos já grandes e três já casados, inclusive, papai e mamãe com três filhos, se aventuraram novamente, em uma nova viagem em busca de um destino melhor. De pau de arara, viajaram milhares de quilômetros, primeiro para São Paulo, depois para o Paraná, de onde nunca mais saíram. Criaram raízes neste novo lugar e Antônia cumpriu sua missão.
Já velha, linda, com seus vestidos rodados e coloridos com flores grandes, lenço na cabeça e com sua sombrinha para se esconder do sol, Antônia passeava pela cidade, sem nunca se esquecer de outrora, mas orgulhosa de ter escrito a sua história, a de seus filhos e netos de forma diferente. Essa parte da história não me chegou pelas palavras de meu tio, eu a vivenciei e a imagem dessa senhora gorda alegre, está em minha mente porque fez parte da minha infância. Esta senhora feliz e cheia de disposição era minha avô.

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