OS
RATOS
(por Marta Soto)
Muitas
vezes as pessoas passam por situações inusitadas. Marina morria de medo de
dormir em casa sozinha apesar de pagarem uma empresa de segurança para vigiar a
casa. Ficava apavorada só de pensar que poderia entrar um ladrão e
surpreendê-la. Sentia até calafrios de imaginar-se diante de um larápio. Para
piorar, seu marido fazia freqüentes viagens a negócio e costumava ficar alguns
dias fora de casa. Nestes dias, ela apelava para um sobrinho e pedia que lhe
fizesse companhia enquanto o marido não chegava para sentir-se mais
confortável. Cícero já estava acostumado com os pedidos da tia e sempre que o
tio viajava lá estava ele, solícito, pronto para ser o acompanhante oficial
daquela senhora cheia de medos. Tudo sempre corria bem. Ele chegava, os dois
jantavam, conversavam animados enquanto ela lavava as louças do jantar, riam
bastante, depois assistiam à televisão e por fim iam dormir. Essa era a rotina
de todos os dias. Mas...
Naquela
noite, porém, o insólito e quase improvável aconteceu porque o bairro era bastante
tranquilo e o vigia noturno passava de meia em meia hora pela rua. Os dois já
haviam se recolhido aos quartos quando ouviram algo caminhando pelo teto. Saíram
novamente para a cozinha de onde vinham os ruídos e silenciosamente passaram a
prestar atenção ao mínimo de barulho que aparecesse. Os ruídos recomeçavam a cada instante e os
dois foram tomados pelo pavor. Olhavam um para o outro, emudecidos e faziam
gestos, apontando para cima para uma clarabóia que havia no teto da cozinha
porque era de lá que estavam saindo os ruídos. Cícero, que já era gago por
natureza, ficou mais gago ainda, mas, apesar do medo, quis mostrar valentia e
proteção à sua tia que nele confiava. Trêmulo, foi até em baixo da clarabóia,
acompanhado de um pedaço de pau e gritava com sua voz gaguejando: - sa- sa – sa
–sa- sai daí cabra sem vergonha! Que – que – que eu vou te pe – pe- gar! A - a - aqui tem macho, cabra! E o marginal não respondia nada.
Nestas
alturas, Cícero e Marina já estavam molhados de suor de tanto medo e prontos
para correr porta afora gritando caso acontecesse de o ladrão abrir a clarabóia
e entrar na casa. De repente, os ruídos cessaram, mas Marina e Cícero ficaram
acordados até amanhecer o dia a olharem para o teto com receio de que o
“ladrão” os surpreendessem dormindo. De manhã, muito cansados, mas já passado o
susto, Cícero se sentiu orgulhoso de si próprio e acreditou que fora sua
valentia que havia espantado o ladrão.
Contou
o caso para a família se ufanando de ter espantado o “bandido” com sua coragem
e o mais engraçado era que a história ia aumentando a cada vez que ele a
contava.
Dias
depois, descobriu-se uma ninhada de ratos que corriam animados pelo teto da
casa e o dedetizador foi chamado para dedetizar a casa. Após o serviço feito ele
disse que provavelmente os ruídos noturnos eram causados por aquelas
criaturinhas que com fome caminhavam incessantemente à procura de alimentos
assim que percebiam que não havia mais ninguém que os espantasse.
kkkkkkkkkkkk, tio Cícero e suas histórias...essa foi muito boa! Que saudades...
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