A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

quinta-feira, 29 de maio de 2014

OS RATOS



OS RATOS

                                              (por Marta Soto)


Muitas vezes as pessoas passam por situações inusitadas. Marina morria de medo de dormir em casa sozinha apesar de pagarem uma empresa de segurança para vigiar a casa. Ficava apavorada só de pensar que poderia entrar um ladrão e surpreendê-la. Sentia até calafrios de imaginar-se diante de um larápio. Para piorar, seu marido fazia freqüentes viagens a negócio e costumava ficar alguns dias fora de casa. Nestes dias, ela apelava para um sobrinho e pedia que lhe fizesse companhia enquanto o marido não chegava para sentir-se mais confortável. Cícero já estava acostumado com os pedidos da tia e sempre que o tio viajava lá estava ele, solícito, pronto para ser o acompanhante oficial daquela senhora cheia de medos. Tudo sempre corria bem. Ele chegava, os dois jantavam, conversavam animados enquanto ela lavava as louças do jantar, riam bastante, depois assistiam à televisão e por fim iam dormir. Essa era a rotina de todos os dias. Mas...

Naquela noite, porém, o insólito e quase improvável aconteceu porque o bairro era bastante tranquilo e o vigia noturno passava de meia em meia hora pela rua. Os dois já haviam se recolhido aos quartos quando ouviram algo caminhando pelo teto. Saíram novamente para a cozinha de onde vinham os ruídos e silenciosamente passaram a prestar atenção ao mínimo de barulho que aparecesse.  Os ruídos recomeçavam a cada instante e os dois foram tomados pelo pavor. Olhavam um para o outro, emudecidos e faziam gestos, apontando para cima para uma clarabóia que havia no teto da cozinha porque era de lá que estavam saindo os ruídos. Cícero, que já era gago por natureza, ficou mais gago ainda, mas, apesar do medo, quis mostrar valentia e proteção à sua tia que nele confiava. Trêmulo, foi até em baixo da clarabóia, acompanhado de um pedaço de pau e gritava com sua voz gaguejando: - sa- sa – sa –sa- sai daí cabra sem vergonha! Que – que – que eu vou te  pe – pe- gar! A - a - aqui tem macho, cabra! E o marginal não respondia nada.

Nestas alturas, Cícero e Marina já estavam molhados de suor de tanto medo e prontos para correr porta afora gritando caso acontecesse de o ladrão abrir a clarabóia e entrar na casa. De repente, os ruídos cessaram, mas Marina e Cícero ficaram acordados até amanhecer o dia a olharem para o teto com receio de que o “ladrão” os surpreendessem dormindo. De manhã, muito cansados, mas já passado o susto, Cícero se sentiu orgulhoso de si próprio e acreditou que fora sua valentia que havia espantado o ladrão.

Contou o caso para a família se ufanando de ter espantado o “bandido” com sua coragem e o mais engraçado era que a história ia aumentando a cada vez que ele a contava.

Dias depois, descobriu-se uma ninhada de ratos que corriam animados pelo teto da casa e o dedetizador foi chamado para dedetizar a casa. Após o serviço feito ele disse que provavelmente os ruídos noturnos eram causados por aquelas criaturinhas que com fome caminhavam incessantemente à procura de alimentos assim que percebiam que não havia mais ninguém que os espantasse.

Um comentário:

  1. kkkkkkkkkkkk, tio Cícero e suas histórias...essa foi muito boa! Que saudades...

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