A vida não é a que a gente viveu, e sim a que
a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márques

terça-feira, 18 de agosto de 2015

CÍCERO (por Marta Soto)



            Como definir Cícero? Era pura simpatia, sempre sorrindo e uma enorme vontade de viver. Fazia amigos com facilidade porque tinha uma alma grande e espírito elevado, sempre pronto a ajudar quem precisasse sem nenhuma preguiça. Apesar de suas limitações, não as via como obstáculos para aprender ou fazer qualquer coisa. Ele era prestativo e gostava da vida. Com sua bicicleta, rodava por toda a cidade, percorrendo quilômetros diariamente para ocupar seu tempo e quando ouvíamos alguém dizer que ele os visitara em algum lugar muito longe, sabíamos que era verdade porque para ele não havia distância que não a transpusesse. Era querido por todos que o conheciam, e vivia sorrindo, de bem com a vida.  Inteligente, mesmo com todas as dificuldades impostas por sua enfermidade, conseguiu estudar até o científico, na escola mais tradicional, o Gastão Vidigal. Aprendeu a tocar alguns instrumentos lendo as partituras com muita facilidade. Tocava sanfona e se ariscava em um órgão, teclado e até mesmo um piano. Aprendeu também a dirigir e se encantava quando alguém confiava e lhe oferecia um carro para que ele dirigisse.
Ele era o filho mais velho, andou somente aos quatro anos de idade e começou a falar tardiamente, com muita dificuldade porque tinha um grau bastante acentuado de surdez. Nunca foi levado ao médico para ter um diagnóstico preciso da doença  por causa da falta de recursos financeiros da família e de sempre morarem na zona rural, bem distante das cidades, (naquele tempo tudo era mais difícil, principalmente quando as pessoas eram simples).  Conforme ele foi crescendo, a família foi percebendo suas dificuldades e limitações e que os problemas eram, em sua maioria, do fato dele não ouvir bem.

Mamãe contava várias histórias a cerca de seu nascimento para justificar a doença. Contava ela que certa noite estava deitada em uma rede quando meu pai entrou com uma espingarda e lhe disse bem baixinho que se levantasse da rede. Ela muito curiosa seguiu o olhar dele até o teto de palha e viu com muito horror uma cobra enorme acima de sua cabeça. Deu um salto enorme já gritando e ele atirou na cobra que caiu no mesmo instante na rede em que ela estava deitada. Segundo ela, o susto que levou provavelmente foi a causa dos problemas do filho. Mais tarde, já adulto, descobrimos que a doença que o acometera durante toda a vida era genética e que provavelmente alguém da família no passado já tivera a mesma enfermidade.

Era um filho especial que mamãe tratava com muito carinho, cuidados e mimos super protegendo-o de tudo. Lembro-me de um dia em que Cícero chegou a nossa casa chorando muito, soluçando tanto que ninguém conseguia fazê-lo parar. Mamãe desesperou e me mandou correndo até a casa de minha avó e de minha tia que ficavam no mesmo quarteirão, saber o que havia acontecido. Ninguém sabia de nada e ele também não contou. Dormiu chorando cercado de todos os cuidados. Hoje penso que talvez ele tivesse depressão, mas na época ninguém falava nesta doença. Quando mamãe se foi, não se esqueceu de recomendar a todos nós que cuidássemos dele. Foi sua maior preocupação!

Ele viveu assim por muitos anos quando de repente sentimos que alguma coisa errada estava acontecendo com ele. Quando chegava a nossa casa percebíamos que ele arrastava os pés para andar. Observamos isto, mas nem imaginávamos o que estaria por vir. Dizíamos para ele: “Cícero, não arraste os pés! Ele ria! Então, ele passou a nos contar que havia caído da bicicleta na frente de um carro e começamos a ficar preocupados seriamente com ele. Eu disse para ele que iria fazer um lembrete com seu nome e endereço para ele andar no bolso. Ele não gostou da ideia e paramos por aí. Minha irmã Neuza passou a levá-lo no SUS para consultas que nunca chegava a nenhuma conclusão. Certo dia, eu disse que o levássemos a um neurologista para uma consulta particular. A partir desse momento, começamos a descobrir o que realmente ele tinha.

Exames computadorizados minuciosos foram feitos até que o doutor nos chamou e finalmente nos disse o que realmente ele tinha. A doença era degenerativa e se chamava ELA (Esclerose Lateral Amiantrófica). O médico nos preveniu que a doença dele era genética e que ele aos poucos perderia os movimentos e que iria sentir muita falta de ar porque seus pulmões iriam se comprimir conforme os músculos fossem secando e a partir desse momento ele poderia entrar em óbito. Choramos muito mais não contamos para ele. Ficamos conversando e tentando buscar uma solução. Pensamos em levá-lo para Curitiba, porém, desistimos por saber que não adiantaria de nada. Dessa forma, vimos nosso irmão definhar aos poucos, sem podermos fazer muita coisa por ele. O levávamos às consultas periódicas mesmo sabendo que seriam paliativas e somente retardariam o óbito.

Em seu momento final, o sofrimento foi insuportável! De hospital em hospital nos revezávamos nos cuidados. Ele sempre calado, sem reclamar, suportava todo o sofrimento. Creio que ele acreditava que podia se curar. Perdeu os movimentos das mão, dos pés, sempre inchados por falta de circulação, e  por fim já se alimentava por meio de uma sonda. A sua magreza era assustadora devido à forma de alimentação. Olhávamos para ele e víamos toda a dor estampada em seu rosto, contudo, sem reclamar. Aquele Anjo se foi em uma manhã fria e triste de julho. Ficamos muito sentidos, porém, conformados porque sabíamos que estava melhor assim. Ele se foi como todos nós iremos um dia e deixou saudades de suas falas inesquecíveis que nos faziam rir muito.  Saudades, irmão! Mas uma saudade que sabemos que é de amor que temos por você e que sempre vamos nos recordar dos bons momentos que passamos juntos.

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